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Segunda-feira, Abril 28, 2008
Ok, aqui vai:
Pessoa que tem compulsao por afanar, roubar, chama-se cleptomaniaco.
Pessoa com compulsao para comer chama-se comedor compulsivo.
Como se chama uma pessoa viciada em viajar?
Viajantico? Viajolico? Viajador compulsivo?
Nao, nao estou mais em Abu Dhabi (que agora sei onde fica). Estou um pouco mais longe de casa...
..:: por Rafael, às 5:55 PM .::.
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Terça-feira, Abril 22, 2008
Lei de Murphy no. 684: Voce é perseguido por bovinos pedintes
(perdao pela falta de acentos. Onde eu estou esses dias os teclados sao todos 'desacentuados')
Depois de finalmente chegarmos em Delhi, fazer o check in no hotel e tudo mais, resolvemos sair para explorar as imediacoes, pois mesmo apesar de cansados a ansiedade pairava sobre nos. As ruas estavam estranhamente desertas, habitadas apenas por caes vira-latas e uma ou outra ocasional vaca. Vaca? Ora, estavamos na India, e logo isso ia se tornar visao comum, ja que por serem animais sagrados elas tinham transito livre por todo lugar. Como 5 retardados urbanos que jamais haviam visto um bovino na vida, comecamos a correr atras das vacas mendigas (literalmente - elas viviam de comer lixo e estavam em estado deploravel, sujas e mancas. So faltava empurrarem um carrinho de supermercado cheio de tranqueira. Enfim) para tirar uma foto com uma autentica 'vaca sagrada indiana'. So que elas, como todo bom mendigo, nao estavam afim de virar atracao de gringo, e comecaram a desandar para escapar da gente. E a cada flash das nossas cameras nas mal-iluminadas ruas de Nova Delhi, elas pareciam ficar mais agitadas, ate que uma delas resolveu dar um pinote e vir para cima de quem? Exatamente.
Olha, em toda minha vida jamais achei que fosse chegar o momento onde eu seria um gringo pentelho fugindo de uma vaca manca e mendiga no meio da India. As voltas que a vida da, nao e mesmo?
Nao obstante, quando o rebulico estava quase acabado e a sessao de tourada chegava ao fim (com direito ate mesmo a plateia de matilha em ladra feroz), vem o gerente do hotel correndo pela rua atras de nos, talvez ate mesmo mais esbaforado que a vaca mendiga, segurando seu turbante Punjabi e gritando "parem! parem!". Paramos. Ele entao explica que a rua estava deserta por ser um feriado religioso, e que nossos risos e gritos eram escutados e ecoados ate o hotel (que nao estava nem tao perto assim). Nao apenas estavamos perturbando a paz da meditacao de um bairro inteiro, como o gerente tambem nos disse que era quase um pecado para os hindus ficar perturbando vacas. Voltamos com o rabo entre as pernas, mas ja satisfeitos com a algazarra recem acabada.
Faziam apenas algumas horas que nossa viagem tinha comecado de verdade e ja tinhamos perturbado a ordem e a sacralidade do lugar. Boa.
..:: por Rafael, às 7:47 PM .::.
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Sábado, Abril 19, 2008
Alguem sabe dizer, sem consultar o mapa, onde fica Abu Dhabi?
Entao me expliquem como sair daqui? Rs...
..:: por Rafael, às 1:05 AM .::.
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Sexta-feira, Abril 18, 2008
Lei de Murphy no. 683: Sua amiga não é homem
Viajar em grupo é a maior diversão. Será? Depois de empanturrarmo-nos de comida VIP, esperamos mais duas horas até o nosso avião finalmente sair. Como em todo pais de religião sexista que se preze, para passar para o finger do avião haviam duas filas: uma de homem e uma de mulher. Ao me tocar que uma das meninas não havia percebido a diferença, resolvi deixar quieto e me divertir um pouco. Chega a nossa vez.
- Desculpe senhorita, esta fila é apenas para cavalheiros.
Ela não escuta, e eu me aproximo do guardinha e sussurro algo no ouvido dele. Ele dá uma risadinha contida e deixa a menina prosseguir. Ela passa, sem entender o motivo da graça, que agora já se espalhava por todos os outros agentes aeroportuários, que olhavam para ela e riam. Não demorou muito, ela se tocou:
- Por que eles estão rindo de mim? Tô com alguma coisa pendurada nas costas?
- Não... É que a fila que você passou era só para homens.
- Ah, só isso?
- E eu falei pro guardinha que você era uma travesti, que podia passar com a gente.
- O quê?!?!?!
- Não é engraçado?
- Primeiro vocês invadem um buffet VIP e nos deixam que nem duas palhaças, mortas de fome e barradas, e agora você ainda por cima espalha pro aeroporto inteiro que eu sou um traveco?!?!
É. Viajar em grupo realmente é a maior diversão. Bom, talvez não pra ela...
..:: por Rafael, às 12:31 PM .::.
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Quinta-feira, Abril 17, 2008
Lei de Murphy no. 682: Você é V.I.P. - Viajante Impossibilitado de Pagar
Ao chegarmos no outro aeroporto de Bombai descobrimos que nosso vôo para Nova Delhi estava atrasado, e ninguém sabia dizer quando sairia (insira déjà vu do Brasil aqui). Mortos de fome, eu e os outros dois rapazes resolvemos ir buscar algo para comer enquanto as duas meninas iam ao banheiro. Acabamos por encontrar uma área bacana, com um buffet de comida aparentemente grátis. Achei estranho mas como a fome era maior não dei muita bola. Momentos depois, enquanto os três esfomeados faziam verdadeiros pratos de caminhoneiro em meio a um grupo atônito de executivos e pessoas bem vestidas, notei pelo canto do olho uma certa comoção na entrada daquela área elegante. Eram as meninas, revoltadas e nos apontando para uma mocinha indiana que as impedia de entrar. Como alguém que desperta de um transe, olhei para o prato, olhei para elas, olhei para os dois esfomeados, olhei para os executivos e – pimba! – me dei conta da situação.
- Rapaziada, que tal a gente levar nossos pratos para ali atrás daquele biombo?
- Não Rafael, vamos comer aqui mesmo. Ali não tem lugar pra sentar.
- É, mas vocês preferem comer em pé ou não comer?
- O QUÊ? (esse era o francês surdo, pra variar)
- Isso aqui é a área VIP, seus retardados. Ou vocês acham que três mochileiros famintos combinam super bem com esse bando de gente de gravata e blackberry?
Sorrateiramente saímos pela tangente, e ainda demos tchauzinho para as raparigas, que ficaram não apenas famintas, mas com papel de invasoras de área VIP... Mas uma coisa é fato: aquele galinha ao molho tikka massala tava boa...
..:: por Rafael, às 7:11 AM .::.
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Sexta-feira, Abril 11, 2008
Lei de Murphy no. 681: Você vira estereótipo de gringo
8 horas de vôo depois, aterrissamos em Bombaim (ou Mumbai, como a cidade é chamada internacionalmente), para fazer uma conexão doméstica para Nova Délhi. O detalhe é que tínhamos que atravessar a cidade para mudar de aeroporto (algo como Cumbica-Guarulhos). Ao sair do saguão, uma horda de taxistas aguardava como abutres esperando gringos endinheirados (se ferraram, porque nosso grupo era de mochileiros duros e um judeu!). Na Índia aprendemos rapidamente que as coisas funcionam na base da pechincha em tudo: desde táxi até camelô. Assim, tentamos convencer algum motorista a levar-nos os 5 juntos, em apenas um carro, que sairia algo em torno de 200 rúpias cada (1 rúpia = 25 reais 25 rúpias = 1 real). Mas, achando esse 15 reais de táxi 'muito caro' para pagar em dois táxis, resolvemos nos amontoar em um só. O único taxista que topou essa parada, porém, era um velhinho muçulmano a cara do Aiatolá Khomeini. Ele amarrou nossas 5 malas no capô do carro (sim...), e entramos todos no que parecia um Lada 1975 pintado de táxi (sim...), Mumbai afora até que ele diz:
- Vocês se importam se eu pegar um atalho?
Ninguém se opôs. De repente entramos numa favela, favelão mesmo, dessas com esgoto a céu aberto e criança melequenta e suja na porta do barraco. Ah, se minha mãe me visse ali, num táxi com 4 gringos no meio de uma favela com um extremista islâmico conduzindo e as malas amarradas no capô... Se fosse no Tiro de Janeiro, já estaríamos todos no valão coletivo!
..:: por Rafael, às 1:23 PM .::.
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Quarta-feira, Abril 09, 2008
Lei de Murphy no. 680: Você oferece seu corpo em troca de uma poltrona de avião
No dia da viagem, marquei de encontrar com os outros no aeroporto, mas claro que acabei me atrasando e cheguei pouco antes de fechar o check-in (eu provoco Murphy, também…). A fila era grande e todos já tinham despachado suas respectivas malas. Eu tinha que agir, e rápido. Lá na frente vi um atendente da companhia aérea bem gay. Como sou uma pessoa sem escrúpulos e com muita cara-de-pau, resolvi usar meu charme.
- Oinnnn…. Você pode me ajudar a fazer meu check-in?
- A fila é ali, senhor.
- Eu sei, mas tá compriiiida… E eu tô quase atrasado.
(sorrio marotamente)
- Ok, eu acho que posso ajudar. Passaporte, por favor. Ah, brasileiro?
- Sim… Você já foi no Brasil?
- Não, mas adoraria.
- É sempre bom ir quando vocé conhece alguém de lá, sabe? Te mostra assim… todos os lugares especiais… (mordo o dedo indicador assim de leve)
- E hoje você está indo para a Índia? Hm, olha estou vendo aqui que o avião está quase lotado… só tem poltrona do meio.
- Um dia eu vou voltar pro Brasil. Olha que coincidência,! E você queria ir pra lá? (sorrio maliciosamente) Não é? Não tem nenhuma janela?
- Pois é… Bom, vou te colocar no assento da porta de emergência, ok?
(pensei comigo: isso é bom ou ruim? Porque se for uma merda eu paro essa palhaçada agora que eu já vi uma atendente negona com cara de tia carente e eu posso usar meu charme nela também)
- Normalmente esse assento é mais caro, porque tem muito espaço para perna..
Já estava fazendo cara de puto por ter perdido meu tempo, mas ele continua
- Só que eu vou deixar você pegar esse lugar sem acréscimo, que tal?
Maravilha. Peguei o passaporte, o talão de embarque e me pirulitei dali antes que ele pedisse meu telefone!
..:: por Rafael, às 4:46 PM .::.
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Segunda-feira, Abril 07, 2008
Lei de Murphy no. 679: Você quase tem seu visto negado
Para pegar o visto para a Índia, era necessário duas fotos 3x4, preencher um formulário, levar um comprovante de residência e ficar algumas horas na fila. Tudo simples, mas também me servia como ótima desculpa para sair do trabalho no meio do expediente e não voltar mais “porque atrasou”. Mas claro que Exu (sempre ela, capeta dos infernos) empacou minha vida e eu acabei ficando todo atrasado. Não ia mais dar tempo de tirar a tal foto 3x4. Idéia: vamos usar o Xerox potente do escritório e o roubar o papel bom do pessoal de marketing. Gênio. Chego esbaforido no guichê, onde uma Indiana gorda e modorrenta ficava atrás de um vidro.
- Formulário
- Tá na mão.
(examina) – Não é esse.
- Como não? Eu peguei no site.
(mulher suspira) – Toma, preenche este aqui. Foto, por favor.
- É pra já.
(mulher olha a foto, olha pra mim, olha a foto, olha pra mim e pára, com ar de “eu tô vestida de palhaça?”. Resolvi me fingir de papel de parede)
- O que foi?
- Isso é uma Xerox, não uma foto.
- Ééé???
(mulher suspira, resignada. Adoro a lei do menor esforço – funcionário público realmente é universal!)
- Comprovante de residência.
- Ih… Esse eu esqueci.
(mulher vira os olhos, dá um longo suspiro)
- Meu filho, você me aparece aqui atrasado, com o formulário errado, uma Xerox colorida da sua foto e sem comprovante de residência e ainda quer que eu te dê um visto?
(vou fazer cara de coitado) – Please??
(mulher carimba o meu passaporte, já puta) – 20 libras.
(eu entrego uma nota de 50)
– Não tenho troco.
- Desculpa, não tenho menor.
Ela respondeu alguma coisa na língua dela que tenho certeza que era uma maldição hinduísta (mal sabe ela que eu já sou amaldiçoado! Rá!), e, por milagre, eu consegui o visto para a Índia.
Rajastão, aqui vamos nós!
..:: por Rafael, às 6:41 PM .::.
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(porque se alguma coisa pode dar errado, ela vai!)
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